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Título: Entre a demonização e a romantização: a construção jornalística de Suzane Von Richthofen na Folha de São Paulo e no Correio Braziliense (2002-2006)
Autor(es): Bicalho, Lucas Matheus Araujo
Orientador(ra): Reis, Filomena Luciene Cordeiro
Membro(s) Banca: ., .
Palavras-chave: Gênero;Suzane Von Richthofen;Imprensa;Correio Braziliense;Folha de São Paulo
Área: Ciencias Humanas
Subárea: Historia
Data do documento: 2025
Resumo: Ao longo da história, as mulheres carregaram no corpo e na alma as marcas da violência. Foram despojadas de seus bens e de sua independência pela violência patrimonial; julgadas e feridas pela violência moral; silenciadas e oprimidas pela violência psicológica; e tantas vezes subjulgadas pela violência física. Julgadas por práticas como relações sexuais com o diabo, bruxaria, canibalismo e, muitas vezes, tendo seus corpos atacados para satisfazer o prazer masculino, as mulheres foram descritas como frágeis, obedientes e, principalmente, submissas aos desejos dos homens. Assim, eram forçadas a cumprir os papéis estabelecidos pela ordem social - esposa, mãe e dona de casa - e, caso se desviassem desse caminho, a violência e as torturas eram utilizadas como mecanismos de disciplinamento. Mulheres que não seguiam esses padrões eram frequentemente rotuladas como “não-mulheres”, “loucas”, “diabólicas”, “desalmadas” e “anormais”. No contexto da criminalização, mulheres historicamente vistas como vítimas passaram também a ser classificadas como agressoras, envolvidas em facções criminosas, tráfico de drogas, homicídios e sequestros. Tal presença no universo da violência desafia concepções tradicionais de gênero, que associam o crime a atributos masculinos. Na mídia, os atos violentos cometidos por mulheres são frequentemente interpretados como desvios psíquicos, exceções ou anomalias, reforçando padrões que desconsideram a complexidade social. Este estudo parte da compreensão de que crimes cometidos por indivíduos resultam de uma interação complexa entre fatores individuais, culturais, sociais e políticos — e não exclusivamente da condição de gênero, como sugeriam discursos positivistas, religiosos, judiciários e médicos do século XX. Embora originados em outro contexto, esses discursos ainda influenciam o tratamento dado às mulheres no século XXI, que continuam a ser julgadas antes pelo gênero do que pelos atos praticados. Diante disso, com o intuito de problematizar a construção histórica das características atribuídas às mulheres que confrontam a ordem social, esta dissertação tem como objetivo analisar os conteúdos jornalísticos da Folha de São Paulo e do Correio Braziliense, publicados entre 2002 e 2006, que se relacionam ao Crime Richthofen e focalizam a imagem de Suzane von Richthofen. A investigação abrange manchetes e reportagens, buscando compreender como esses veículos construíram, reforçaram ou tensionaram representações da criminalidade feminina. A análise fundamenta-se nas teorias da História Social das Mulheres e nos estudos de gênero, adotando a metodologia de Análise de Conteúdo. Ao final do percurso investigativo, torna-se evidente que a multiplicidade de formatos, imagens e discursos que envolvem a participação de mulheres em episódios criminais revela mais do que simples registros do presente: ela expõe modos de sentir e pensar que reafirmam padrões conservadores, mas também abrem espaço para novas percepções sobre gênero e sociedade. No entrecruzar de permanências e rupturas, o contemporâneo surge carregado de tensões, provocando o(a) leitor(a) a refletir sobre valores herdados e práticas sociais que insistem em se reproduzir. É nesse cenário, em que o antigo convive com o emergente, que esta pesquisa se situa para analisar construções e desconstruções de gênero, permitindo considerações ainda abertas à contestação e à interpretação crítica.
URI: https://repositorio.unimontes.br/handle/1/2330
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